Pensando nos planos que fazemos e que podem ser inexoravelmente mudados contra a nossa vontade, voltei-me a pensar nos últimos meses e no quanto os nossos desejos podem estar longe do nosso controle.
Essa falta de controle de tudo pode nos ser apresentada por fatos inesperados e por situações que ultrapassam os limites da compreensão, mas que escancaram a nossa fragilidade sob vários aspectos.
Nos últimos 2 meses venho experimentando várias emoções e sensações que de outra forma não seriam possíveis. Um joelho adoecido por um movimento simples me colocou em uma situação de extrema fragilidade e me fez perceber o quanto dependemos das pessoas à nossa volta e o quanto o nosso desejo de sermos independentes deve ser repensado dia após dia.
A necessidade de que estivessem perto de mim a todo momento, principalmente no primeiro mês após o movimento que me colocou imobilizada, me mostrou e me fez refletir em uma série de situações em que nos pegamos falando para pessoas nessa situação: "reaja", "vc é forte", "levante", "faça o que vc pode", e tantas outras frases que tem o objetivo de ajudar, mas são uma forma de pressionar e fazer com que o indivíduo fragilizado encontre sua força para melhorar e pare de nos dar tanto trabalho, mas que colocam a pessoa dependente em uma situação pior ainda, pois escancara a sua impossibilidade de melhorar naquele momento e transparece, muitas vezes, a falta de empatia do cuidador.
A sensação de incapacidade e de dependência nos coloca também como pedras nos sapatos das pessoas que mais amamos, pois inevitavelmente prendemos a elas uma corrente que as obriga a estar conosco durante essa fase difícil. As afastamos do que gostam de fazer, do trabalho e as sobrecarregamos com trabalhos e atividades que antes eram nossas. E não há o que fazer, a dor e a incapacidade do momento nos coloca nesse lugar, somos agora dependentes da ajuda, da boa vontade e da paciência daqueles que estão ao nosso lado.
Acho que o termo paciente deveria ser também destinado a quem ajuda e cuida, pois é necessário a paciência a quem doa e a quem recebe cuidados. Há momentos de extrema tensão, de irritação e de cansaço que devem ser entendidos pelas duas partes.
Todo esse tempo afastada do trabalho, das atividades domesticas e de lazer me fizeram entender a importância de valorizar cada movimento que fazemos no dia-a-dia, o simples ato de poder levantar e ir sozinho ao banheiro, poder tomar banho sem dores e sem plateia, almoçar normalmente com todos juntos à mesa, poder dormir sem tantos travesseiros (é horrível) e tantas outras pequenas coisas que só nos damos conta quando não podemos fazer. Valorize!
A necessidade de cuidados também reflete a nossa expectativa quanto à atenção das pessoas e quais delas fariam para vc o que vc fez quando necessitaram. Nesse aspecto é preciso ser forte, esperar que na sua necessidade outros movam o mundo como vc moveria, é no mínimo criar expectativas que certamente serão frustradas. Não por culpa dessas pessoas, afinal vc as ajudou por que quis e porque o coração pediu e a espera da reciprocidade veio de vc, portanto a expectativa de ajuda foi criada por vc. Nem todos farão aquilo que esperávamos que fizessem, nem todos deixarão os seus afazeres para ligar para vc e perguntar se vc está bem ou, se hoje, a dor está menos intensa. Aprendi nesses dois meses, à duras penas, que esperar dos outros a reciprocidade por movimentos de socorro, em gratidão por sua ajuda do passado é inútil e decepcionante. Dói, machuca muito, mas é a realidade, poucos se movimentarão ou sairão de sua rota para ajudar vc.
Poderia dizer, "e está tudo bem", (isso virou moda atualmente) mas não, não está tudo bem não. A ajuda pode ser sutil, um telefonema, uma oração, um boa noite, uma palavra de amor e carinho muitas vezes ajudam muito mais do que estar 24 horas próximo e não esboçar qualquer ação de empatia.
Sendo assim, não poder estar próximo não deve ser desculpa para não ajudar, não acarinhar e não dar o apoio emocional necessário. Por isso, nunca diga que está tudo bem qdo pessoas muito próximas sumirem e não derem a vc o apoio necessário, principalmente quando vc foi em outras situações o sustentáculo e a base que manteve essa pessoa em pé. A recusa para não ir a sua ajuda não é falta de tempo, é ingratidão.
O joelho me mostrou o quanto somos suscetíveis , frágeis e quanto o tempo age e se movimenta independente de nossa vontade. Quero andar, mas no tempo da cura. Quero voltar às atividades, mas no tempo da melhora. Quero voltar para o trabalho, mas será no tempo definido para poder me sustentar em pé. No final da somatória dos eventos o que reflito é sou submissa aos eventos e na impossibilidade de tomar uma pílula mágica que irá me tirar desse momento de reclusão. Não há pílula, tem que haver vontade, paciência e resiliência.
Poucos ouvem suas reclamações ou o que vc fala durante esse momento de fragilidade, se o movimento do joelho dói e relatamos a dor o que ouvimos: "é assim mesmo", "humm", "tem que doer para melhorar", mas os ouvintes se esquecem que quem sente a dor é quem relata e o ouvido ativo a essa reclamação ou relato faz parte de um tratamento humanizado e empático e, sinceramente, pouco vi durante todos esses dias de tratamento.
Poxa, quantos aprendizados...
Enfim, vamos caminhando (figura de linguagem), ou melhor, vamos no andador, melhorando a cada dia e resignificando várias coisas que se não estivermos na posição correta sequer perceberia. Logo estarei de volta, mais forte (eu acho), mais atenta (espero) mas, muito mais, grata por tudo o que se passa no meu dia e na importância de estarmos prontos e atentos para tudo o que possa vir no futuro.



